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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Um colo vazio . . .

Depois do choque de ter nas mãos pela segunda vez um teste de gravidez positivo, no meu coração instalou-se a maior das alegrias. 

Ia ter a graça de ser mãe pela segunda vez!  Não parava de pensar em como iria ser ter dois bebés em casa, pois o meu filho teria 21 meses quando nascesse o mano ou a mana, mas não tinha medo e estava muito excitada pela chegada da cegonha.

 

O que me arreliava no meio desta alegria era ser criticada pelas pessoas devido ao facto de estar grávida novamente tendo ainda um filho ainda tão pequenino.

Abro aqui um parêntesis para dizer a quem está na mesma situação que não liguem ás más línguas. Cada casal sabe de si e ter um filho próximo do outro não é uma tragédia. Para dizer a verdade sempre me vi mãe de dois ou três em escadinha. :-)

 

O ínicio da gravidez foi optimo pois não tinha um único sintoma de estar grávida e estava ansiosa pela primeira ecografia que fiz ás seis semanas e que me confirmou a gravidez. Pouco se notava o bébé,mas o seu coração já batia. 

 

Tal como na primeira gravidez também tinha as mesmas dores e a placenta descolada e claro está, tive de fazer o repouso do costume.

Não sei bem porquê, chamem-lhe ou não instinto, e ao contrário do que aconteceu na primeira alguma coisa me dizia que esta gravidez não iria ter o mesmo desfecho.

Aguardei angustiada pela ecografia das 12 semanas que tardou em chegar.

 

No final de Novembro lá chegou o dia da ecografia e não imaginam " a pancada" que nós levamos quando o médico nos disse que o coração do bébé não batia . . .

 

Pelas contas, teria morrido perto das dez semanas, sem motivo aparente, pois não se notava nenhuma anomalia e estava praticamente todo formado. A imagem daquele pequeno ser não me saia da cabeça e quase deixei de pensar e ouvir pelo choque que senti naquela altura. Penso que desnorteada é a melhor palavra para descrever aquele momento, quase  nem ouvi o resto da consulta e nem queria acreditar quando o médico me disse que o normal era esperar quatro semanas após a determinação do óbito para que o corpo expulsasse o bebé e só após essa data seria efectuado algum procedimento necessário.

E ainda me faltavam esperar quase duas semanas! . . .

 

Chorámos tanto nos dias a seguir, eu não podia pensar que o bebé que eu tinha visto com mãos , braços , pernas, etc... poderia sair a qualquer momento e que a última morada daquele ser tão querido e desejado eram as fossas municipais junto ao esterco de toda a gente.

Não lhe poderia ver, abraçar, beijar e fazer um funeral digno  de alguem. A espera estava a matar-me por dentro.

Precisava de um ponto final na situação e não o tinha!

 

As pessoas diziam-me que tinha de ultrapassar e seguir em frente pois sou ainda nova e tenho um filho muito pequeno, mas como poderia avançar se ainda tinha um bebé morto dentro de mim.

É aquilo a que chamam um aborto retido!

 

Tive tanto nojo, vergonha, medo, sentia-me uma aberração pois sabia que olhavam para mim e sabiam o que lá estava. Deixei de me sentir uma mãe para me sentir um caixão ambulante. E depois juntou-se a incerteza de quando iria ser, como iria ser, se doía ou não, se era na rua (comecei a levar uma muda de roupa sempre comigo quando saia), ou se seria assistida no hospital. Tive mais de oito dias a perder um pouco de sangue e nada mais. 

Quis Deus que a natureza não seguisse o seu caminho e o bebé não saiu sózinho.

 

Então nesta segunda dia 10 de Dezembro dirigi-me á maternidade para me provocarem o parto. Eu sabia que não era possível, mas no fundo tinha esperança que houvesse um  milagre e que ele tivesse vivo.

 

Deixei de conseguir falar e só chorava, no hospital nem conseguia dizer de quantas semanas estava. Curiosamente não tive medo apenas chorei pela enorme tristeza que tinha.

Fui observada na maternidade e mais uma vez se confirmou o diagnóstico, tinha morrido.

Mas o meu médico que é um anjo na terra internou-me na ginecologia e não na maternidade.

 

Graças a uma enfermeira o meu marido pode estar todo o tempo comigo e só a sua presença me ajudou a superar as horas de internamento e as dores de um trabalho de parto induzido e sem anestesia. Foram contracções muito rápidas e muito dolorosas,mal tinha tempo para respirar, e chorei tanto, não pelas dores mas por passar por tudo aquilo e não ter ninguem para levar para casa.

 

Depois pareceu uma garrafa de champanhe, rebentou-se qualquer coisa e fiquei encharcada em água morna. Comecei a perder imenso sangue e contudo o bebé não saiu.

Já no fim da tarde fui observada e o médico conseguiu tirar todo o bebé sem ser necessária uma raspagem. Este procedimento foi feito no piso da maternidade e mais uma vez vi os bebés das outras e eu sem nenhum.

 

Voltei para casa com um vazio enorme e com uma grande sensação de perda.

Abracei tanto o meu filho quando cheguei e não queria tira-lo mais do colo, precisava desesperadamente do seu cheiro a bebé  e do seu toque macio.

 

Tentam animar-me dizendo que já passou e que tenho de seguir em frente, mas como posso pensar em seguir em frente quando acabei de perder um filho, pois era isso que ele era, um filho.

 

Não oiço dizerem isso a alguem que perde um bebé com mais semanas de gestação, ou a alguém que perde mesmo um filho; nessas alturas todos dizem " pois é , deve ser uma dor muito grande, perder assim alguem", e porque é que a mim ninguém diz isso?! Porque não me dizem para chorar e fazer o meu tempo de luto e porque me obrigam a seguir em frente e a fingir que nada aconteceu?

 

Claro que são situações diferentes as que acima  refiro e que cada caso de aborto é diferente do outro mas o meu bebé também era alguem ou será que por ter morrido tão cedo deixou de ter significado?

 

Eu sei que o mundo não acabou e claro que seguirei em frente, mas neste momento só se passaram quatro dias, ainda estou dorida e ainda tenho o corpo a ajustar-se a tamanha mudança. Como se tudo não bastasse  ainda me apareceu colostro!

 

Estou muitissimo revoltada e sinto-me um animal desorientado há procura da minha cria. Sinto-me sózinha e tenho a sensação que ningúem me compreende.Quero o meu bebé e não o posso ter!  Enfim . . . sinto-me mal.

 

 

 

 

 

 

 

publicado por maria às 20:37

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10 comentários:
De Anónimo a 29 de Abril de 2008 às 23:03
Tambem eu em 1997 passei pela mesma situação na primeira ecografia veio o choque da noticia que me foi dada de forma brutal tambem no hospital chorava em fim revejo no seu relato o que me aconteceu sem tirar nem por apenas com uma diferença era o meu primeiro e não tinha em casa quem abraçar o meu marido achava como as outras pessoas que ainda era cedo e não era ainda um bebe foi dificil bastante dificil e passados estes anos ainda me lembro da data provavel do parto da data da noticia e do dia em que fui ao hospital para fazer o "parto" não tinha ate hoje encontrado ninguem que sentisse e passa-se o mesmo que eu e desde ja lhe digo não se esquece e quando contabilizo filhos acrescento aos meus dois aquele que ainda não tinha ganho nome beijinhos e força
De maria a 4 de Maio de 2008 às 17:30
Olá e obrigado pela atenção!

Realmente não há um dia que passe em que não falemos nele e agora com a data provavel a aproximar-se a angustia toma conta de mim.
Deixámos de falar nisso com os outros, preferimos guardar a imagem do nosso anjinho para nós.

Enfim é mesmo assim, fui mãe de dois e só tenho um em casa, e como nós há imensa gente por ai com a mesma mágoa e sem serem compreendidos.

De Álefe a 5 de Abril de 2008 às 16:56
ô minha querida,

imagino que deva ser terrível sim! Mesmo que tivesse poucas semanas de vida, cm certeza já era um ser humano que vivia na sua barriga!! Não ligues para as pessoas insensíveis! Vc tem todo o direito de se sentir assim!! Mas não esqueças do teu outro bebê, pq ele precisa de vc!! Que Deus te conforte!!
Bjinhos, Álefe.
De maria a 4 de Maio de 2008 às 17:34
Obrigado pelas suas palavras carinhosas.
Sei que não o vou esquecer e neste momento já estou melhor, já não me sinto tão revoltada, apenas tenho o vazio e a desilusão de não ter trazido um novo bebe para casa.
beijinhos
De Ana Flavia a 28 de Janeiro de 2008 às 15:18
Oi... sinto muito pelo que aconteceu.... dia 06/12/2007 também sofri um aborto retido. Estava gravida de gemeos.... fiz um ultrasson e me senti exatamente como vc!
Agora vou fazer vários exames para saber o que aconteceu.
Espero que vc estaja melhor. Foi muito bom p mim ler seu depoimento pq é exatamente o que senti e ainda sinto. Uma trsiteza muito grande que parece não ter mais fim.
Mais tenho certeza que vai passar e em breve teremos nossos bebes com muita saúde!
Fica com Deus. Beijos
De maria a 30 de Janeiro de 2008 às 13:13
Oi Ana!
Sinto muito pelo que tiveste de passar! É uma mágoa enorme não é?! Foi uma prenda de Natal muito amarga!
Mas é como dizes, daqui a uns tempos se Deus quiser havemos de ter um bébé no colo. E se o destino nos pregar mais uma partida, então que Deus nos dê força para para superar e continuar a tentar.

Beijinhos grandes e obrigada pela tua mensagem.
Maria
De Adriana a 5 de Janeiro de 2008 às 21:09
Maria,

Que seu bebezinho esteja no ceu junto dos anjos a te ver, e torcendo para vir um outro anjinho logo que possível, quando chegar a hora para acompanhar e dá alegria junto de seu outro filho. Deve ser uma sensação horrível Maria, estou grávida de 6 meses, e sinto completamente ligada a minha filha, esperando ansiosamente por sua chegada, Deus me livre de uma situação dessa, mas Ele estará sempre ao nosso lado. Chore o que for preciso, e lembre-se e peça sempre a ajuda de Deus porque só Ele, e força, força sempre!

Que 2008 seja um ano repleto de realizações para vossa família.
De maria a 24 de Janeiro de 2008 às 12:07
Olá e obrigada pelas tuas palavras! Foram muito bem vindas.
Neste momento já estou a ultrapassar a enorme desilusão que tive,mas a mágoa permanece.
Eu sei dessa ligação que falas ter com a tua bébé. Vais ver que irá correr tudo bem e os medos que tens são mesmo assim, seja do primeiro, segundo ou terceiro. Temos sempre medo,mas depois quando os temos pela primeira vez no colo tudo passa.
E a ansiedade também é normal, e vai-te habituando porque vai ser sempre uma constante na vossa vida. Principalmente se for o teu primeiro bébé.
Costuma-se dizer que quando Deus nos fecha uma porta, abre-nos uma janela. Eu acredito que a minha está aberta,mas ainda não a consegui ver e um dia hei-de lá chegar.
Obrigada mais uma vez pela tua força. Beijocas
Maria
De Sara a 23 de Dezembro de 2007 às 15:18
Feliz Natal são os votos do Portal doBebé
Nada de desis
Felicidades, prendinhas, docinhos e mt amor

Sara
Portal doBEBE
http;//www.dobebe.com
De maria a 23 de Dezembro de 2007 às 18:36
Obrigada Sara!

Um Santo Natal e um Ano Novo repleto de saúde, paz e amor.

Maria

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